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O VIGIA E A
HAVAIANA
Minha rua tem quarenta casas e uma guarita,
destinada aos vigias contratados pelos moradores. Seu José é um deles,
aposentado do INSS, que faz o turno da noite. Vez por outra bato um papo com ele
quando saio cedinho para andar de bicicleta, antes que o seu substituto chegue
para rendê-lo no serviço.
- Então, como vão as coisas? – é a pergunta que
faço.
Fugindo à resposta “do está tudo bem”, há três semanas ele me surpreendeu: - A
coisa não está boa, não.
Quis saber por quê, e a explicação veio na ponta do dedo:
- Por causa daquela baiana ali.
A “baiana” era uma havaiana de argila, pintada em cores vivas, com a metade
superior do corpo moreno, em tamanho humano, debruçada sobre o muro da casa
perto da guarita. O corpete decotado tinha flores amarelas que sobressaíam
contra um fundo rosa. O cabelo negro, bem puxado, com outra flor no alto,
terminava numa trança grossa que caía sobre o ombro esquerdo, arredondado e nu.
Como arremate, a trança exibia na ponta mais uma flor, de cor azul. Roliços e
carnudos eram os seus braços, e bem modelado o colo sensual, entremostrado sob a
roupa. Um busto de mulher que chamava a atenção de quem passasse pela rua até
pelo inusitado da visão.
- Não é uma baiana, seu José, é uma havaiana – corrigi meu amigo.
- Pra mim é uma baiana. Um diabo de mulher!
- Vai com calma, seu José. É apenas um enfeite de barro colorido.
- Enfeite para o senhor, que só passa por aqui de dia. Mas sou eu que viro a
noite vendo ela. Já nem faço a vigilância direito, namorando essa pestinha. E
ela de lá me olhando também com aqueles olhos cheios de tentação. É um
sofrimento medonho. Eu sei que não sou mais criança, que sou um velho aposentado
e viúvo, o que piora tudo pro meu lado. Para ser sincero...
Ele cortou a frase e eu o provoquei: - Pode falar, seu José.
- Para ser sincero ela já deu até adeusinho pra mim.
- O senhor não tomou umas cervejinhas, não?
- Eu nunca bebo em serviço e cerveja me ataca o fígado. Foram adeusinhos
seguidos, uma noite depois da outra. E “antionti” ela dançou pra mim, de corpo
inteiro, bem aí onde o senhor está com a bicicleta. Pulou do muro e veio
rebolando que nem uma Salomé em direção à “gorita”. Olha que a danada sabe
rebolar com seus pezinhos descalços e florzinhas nas canelas.
- Seu José, eu acho que está na hora do senhor tirar uma licença. Na sua idade,
ficar acordado a noite toda acaba causando essas alucinações com um simples
boneco de fachada.
- Alucinações? Quem dera que fossem! – disse ele contrariado com o meu
comentário.
Alguns dias mais tarde, seu José veio à minha casa.
- Vim me despedir do senhor – disse ele. – Fui dispensado.
- Dispensado por quê?
- Então o senhor não sabe? Roubaram a baiana do muro e meu chefe achou que eu
dormi no serviço e falhei a vigilância.
- Confesso que não sabia disso. Não tenho ido para aqueles lados da rua e estava
por fora do roubo. Mas me explica uma coisa: o senhor não disse que não tirava o
olho da baiana? Como é que roubaram ela debaixo do seu bigode, sem que o senhor
visse?
- Roubaram porque deixei roubar... Eu fingi que estava dormindo e aí levaram
ela. Foram uns pivetes que passaram pela rua, quando o dia tava clareando.
- E por que o senhor deixou roubar?
- Porque a danada estava atentando minhas ideias. Se eles não roubassem era eu é
que ia acabar levando ela pra morar comigo.
Publicado em
05.03.10.

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