
APRESENTO-LHES SAMUEL CORTÊS
Apresento-lhes Samuel Cortês, com quem tomo, duas ou três vezes por semana, um pingado numa
padaria em esquina de Paul. Samuel "Sofismático" Cortês, diga-se de
passagem. Ele nada sabe desse "Sofimástico", que vai por minha conta e
risco. Sobre seu verdadeiro nome, ele se apressou a esclarecer tão logo nos
conhecemos:
— Uma
sacanagem, isso sim. Coisa saxônica de meu pai, que me botou esse nome
hebraico, ou judaico, ou aramaico para ver se meu destino se endireitava. Lá em casa é tudo assim:
Ruth, Ester, Melquisedeque. Só não tem Dalila nem Batseba. Aí a nomenclatura
saía do esquadro.
E esse Cortês, Cortês com “s” no final e circunflexo no “e”? Onde é que meus
antepassados arranjaram esse sobrenome? — perguntava como se soubesse a
resposta. Ou como se eu fosse um de seus pupilos imaginários.
— Mas o
que é que tem “Samuel”, Samuel? E Cortês, o que é que tem?
— Samuel?
— disse ele com uma cusparada. — Vá ver no dicionário, meu chapa, num desses
dicionários de significação dos nomes. Nem me atrevo a falar da sua
significação com relação a mim. É absolutamente inadequado. Agora, quanto ao
Cortês, é por isso que meu rumo pegou vento contra. “Cortês”, meu amigo, é
aparentado de cortesão, que é aparentado de cortesã. Daí já se vê. De gente
vã que anda coçando saco de rei boa coisa é que não podia medrar. Não queria
falar, mas descendo de engrossadores, de gente que acariciava os escrotos
das majestades.
E
ruminava o nome para cuspi-lo na calçada da padaria.
Vê-se que
Samuel Cortês não apreciava o nome. Por isso todos os chamavam Samuca. As
meninas do cais se derretiam com "Samuquinho, vem cá, Samuquinho, onde é que
você andou?"
E ele,
todo derretido, é verdade, rosnava baixinho:
— Lá vêm
essas malandrinhas. Ontem me roeram quase um terço da aposentadoria. Provavelmente
querem mais — vinha com um risinho oblíquo que mais parecia um autoelogio,
como se dissesse para si e para mim e para todos os que pudessem ouvi-lo "o papaizinho aqui é doce".
Mas
Samuel, digo, Samuca, tinha, só pra não perder o mote, também opinião sobre
o pingado.
— Café
com leite, meu amigo, é como angu com jiló. Coisa de anjo trapalhão que
ajudou o Criador na criação do mundo.
E sem que
eu perguntasse, depois de aceitar um cigarro que lhe oferecia, continuou:
— Esse
anjo foi incumbido de descer à Terra e colocar no meio dos homens o com que
se alimentarem. No fim do turno, esse estafermo compareceu perante o Criador
e, muito pressuroso, anunciou que havia cumprido com sua obrigação e
distribuído um pasto bastante significativo (devia ser um funcionário
público celestial) entre as criaturas do Criador.
Ao que o Criador lhe perguntou: “E o que é que você colocou à disposição de
minhas criaturas?” Ao que o anjo respondeu: “Ensinei-lhes misturar café com
leite.” E o Criador, estupefato, com jeito de impaciente e incrédulo: “Você
deve estar brincando!” “Não, não estou.” E antes que o Criador lhe
perguntasse mais, foi logo colocando pra fora: “E também ensinei a misturar
o fruto do milho e o fruto do jiló.” Aí o Criador se impacientou, largando
um “quê” que ecoou pelas infinitudes do universo: “Mas café com leite e angu
com jiló é comida divina, seu mequetrefe. Eu as separei para os anjos,
sacripanta.” Mas aí já era tarde, concluiu Samuca, por isso é que nós aqui
estamos, tomando esse pingado, que é coisa divina.
— Café
com leite, Samuca, vá lá. Mas o que é que tem com a história da criação o
angu com jiló?
— Tá na
essência, meu amigo, na essência. (Vá lá saber o que é que Samuel entendia
por “essência”, que, aliás, é palavra que serve pra tudo quanto é fim.) O
que Deus colocou de líquido, bebemos. De sólido, mastigamos. Pronto. E mais
não digo, que não estou aqui para traduzir as coisas.
E,
jogando, a bituca no meio da rua:
— Me paga
outro pingado.
Publicado em 30.03.09.

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