Aninhanha, à primeira vista, parece um livro estranho com uma linguagem
diferente. O modo como o a narradora se dirige diretamente ao leitor soa como um
atropelo de intenções, sem tempo para a protagonista e o leitor respirarem. Tudo
é jogado na cara, é como se fosse um vômito. Não há palavras bonitas, não há
esperança. Se fosse um filme, seria um filme em preto e branco, sem diálogo, sem
cor e sem som. A protagonista não tem nome, não tem voz, é invisível, maldita.
O autor
não exime de culpa a sociedade, que é retratada de maneira dura. Pedro J. Nunes,
capixaba de São José do calçado, cidade do sul do ES, fala do machismo, da
mulher tratada como objeto, do determinismo do meio, faz da pobreza uma
personagem cruel e usa e abusa de citações bíblicas.
O livro
é narrado por uma mulher que não tem registro, família, dignidade. Essa mulher
chega a acreditar não ser “gente”. Foi encontrada no lixo por Aninhanha, uma
catadora de lixo, negra, miserável, bêbada, um pobre diabo que há muito entregou
os pontos. A protagonista sem nome vive em um ambiente de miséria e
marginalização e se isola do mundo quando percebe o desprezo que desperta na
sociedade.
Da mesma
maneira que Judas, Aninhanha trai a protagonista por trinta moedas e vende sua
virgindade para um garrafeiro. Apesar de toda a sua resistência, a narradora sem
nome é violentada e fica grávida.
Ao saber
da notícia e perceber que essa criança representa a continuidade de si e da
miséria que vive, a pobre moça enlouquece e num ato de desespero mata o filho
recém-nascido. É espancada e presa. Aninhanha, novamente como Judas, se enforca.
É assim
que retornamos ao ponto inicial do livro, com nossa narradora sem nome contando
sua triste história para alguém que pode ser um padre, um advogado, um delegado,
eu ou você, porque essa historia horrível possui uma verossimilhança tal que
poderia ser qualquer um o interlocutor dessa moça.
O livro
poderia ser chamado de “o grito dos excluídos”, pois mostra a dor de um pária da
sociedade que grita, tardiamente, por socorro.
Aninhanha é um livro para ser lido de um fôlego só!