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Pedro J. Nunes > Sobre
sua obra
O SÁBIO E O INGÊNUO 2
ou o que há de novo sob o
céu?
Francisco Grijó
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Pois então o sábio e o ingênuo continuam juntos. Não se seguram
longe um do outro - é uma convivência que mantém acesa a inveja de
muita gente. Algo como Holmes e Watson, como Rodgers & Hart. Vejo-os
de longe, observo as passadas que são fruto de pausado treino. Tento
acompanhar-lhes a disposição, mas os lipídeos e a nicotina impedem.
Em vinte minutos estaremos juntos e há um sorriso em mim porque,
além do prazer de revê-los, vamos conversar. Não é um sábado, como
da outra vez, mas um dia aquecido pelo movimento de muitos ônibus e
gente cheia de compromissos. É meio de semana, quarta-feira de um
junho que confunde a meteorologia. Uma chuva forte prevista, e até
agora o sol incomoda a todos. Menos, é claro, ao sábio, alheio ao
que proclama a tecnologia.
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Em nosso último encontro o sábio teve as vísceras reviradas por eu
insistir em que Nelson Rodrigues era tão importante para a
literatura brasileira quanto Machado de Assis. Penso que a
Literatura não sabia disso - ou, por outra: pensava. Nelson
Rodrigues, antes a desgraçada Besta Fera, é hoje um saboroso e
interminável quindim na boca de oito entre dez intelectuais
da cidade. A culpa reside num ótimo texto biográfico e no
relançamento de toda a sua obra, incluindo os romances e crônicas.
Isso eu não profetizei. Essa gripe rodrigueana não convenceu
o sábio e ele certamente sugeriu que o ingênuo se imunizasse.
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Finalmente chego até eles - há os cumprimentos, uma quase reserva
por parte do sábio; extenso sorriso do ingênuo, meus tapinhas nas
costas de cada um. Gosto deles. É pena que não os veja sempre. O
sábio, dono de uma contida avidez que quer esconder, pergunta-me
sobre os livros que trago comigo. É claro que vamos conversar sobre
literatura. Gosto de ouvir o sábio, embora nem sempre concorde com
ele. Quanto ao ingênuo, muito aprecio sua aquiescência quanto aos
fonemas magnificamente bem articulados de seu amigo. São mais que
uma dupla.
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Os livros que trago são dois: pouco mais de cento e trinta páginas,
se juntos. Um, novela de parágrafo único e pequeno show de
hipérbatos, tem o estranho título de Aninhanha. Autor: Pedro
J. Nunes, a quem não conheço, mas me pareceu, pela foto na terceira
capa, um artista de futuro que promete. Tem a face magra dos grandes
criadores, daqueles que veem mais valia nas palavras que nas
vitaminas. O outro livro, de autor que também não conheço, é
Hardcore blues, de Orlando Lopes, estudante talentoso. São
poemas que me lembraram, à primeira leitura e consideradas as
proporções, uma nervosa erupção do Kilauea. Gostei muito de
ambos os livros.
5 O
sábio, embora educado à Genebra, é deselegante ao me questionar
sobre se sou a pessoa mais indicada para comentar livros. O ingênuo
faz o mesmo, mas silenciosamente. É claro que minha erudição é algo
pífio: Não li Björnson, Sterne ou Musil. E não ouvi falar de Hogg,
Oliecha, Sarbievski. São nomes que o sábio pronuncia com a mesma
intimidade que uma criança diz quero ou mamãe. Sei que
o sábio leu quase tudo e quer ler mais. Sei também que o ingênuo é
todo vibração quando o sábio solta rápidas informações sobre a
literatura produzida no Sudão.
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Vamos aos fatos, os meus, e é o que digo ao sábio: como quase todos
os que apreciam literatura, o que se produz no Espírito Santos lhes
é desconhecido. Não tenho os porquês, respondo rapidamente ao
ingênuo. Talvez preconceito - o Espírito Santo é um estado que nos
traz, de imediato, imagens de Roberto Carlos e panelas de barro. Com
moquecas dentro. O sábio concorda e não me surpreende quando diz que
teve acesso a bons textos produzidos por aqui. Concordamos, ambos,
enquanto o ingênuo, interessadíssimo, folheia Hardcore blues.
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É claro que não pretendo analisar a obra, mesmo porque, além de
mínimo o tempo, em silêncio dou certa razão ao sábio: não sou dos
mais indicados a teorizar sobre uma obra literária. Apenas leio,
tenho interesse. Só não possuo a velocidade do sábio. O que me
impressiona no texto de Orlando Lopes, o texto poético, é o êxito na
primeira tentativa. Eis o que quero dizer: o autor conseguiu, de
bate-pronto, estabelecer um diálogo de muitos frutos entre a
literatura, a fotografia e a música. Algo que Baudelaire fez - por
favor, digo ao sábio, deixe-me terminar! - e Bob Dylan, em
Tarântula, tentou, mas não conseguiu. Rogo que o sábio esqueça o
Decadentismo, as flores e o mal. Insisto que pense na Teoria das
Correspondências, o fértil casamento entre as várias artes. O
ingênuo diz ah bom!
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Não há um poema longo. Ao contrário: o autor sabe que a realidade é
a fragmentação, o flash, a foto. Sabe que o poema, antes de
narrar acontecimentos, serve aos caprichos do instantâneo - mostra o
que de imensamente absurdo ou paradisíaco acontece num
microssegundo. É feroz e terrível como o são o átomo ou o ano-luz. E
Orlando Lopes, através de seu Hardcore blues, sabe disso. Faz
do poema seu caminho de ida, sua tour de force para o que
virá mais tarde: certamente outros poemas, outro livro. O sábio se
interessa, mas faz muxoxo da capa, da epígrafe e da dedicatória,
cheia de números, para os quais o ingênuo envia olhares de enigma.
Mas o sábio entra no texto com as sobrancelhas erguidas, como se
houvesse surpresa. Após o primeiro poema, é um lobo: "Isso já foi
feito!" É claro que sim, é claro que os poemas de pés fincados no
blues rock e naquilo a que chamam apelo desesperado pelo fim do
mundo já foi feito. Claro que já - mas nem todos, repito, obtiveram
êxito ao mesclar, tão balanceadamente, amor, desespero, música e
onomatopeias. Tudo isso regido por um deboche de cortar um bispo em
fatias. O ingênuo se antecipa, perguntando se o deboche é a melhor
forma de ataque. Ao contrário, digo. O deboche é defesa. Defesa
contra essa nossa pieguice quotidiana, contra a poesia de uniforme
escolar ou aquela artificialmente produzida à base de citações e se
escondendo sob o guarda-chuva estéril da pós-modernidade. O sábio,
penso, concorda comigo. Após um ano, sinto que ele me acha senhor de
afirmações mais maduras.
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Não estamos na livraria. O sábio a prefere aos sábados. O ingênuo
também. O sábio, num repente, após três poemas que leu em rapidez de
Hermes, pontua que há algo de Corbière, um tanto de
Roberto Piva, um pequeno quê de iconoclastia e muito de
beatnik. Isso não desmerece o texto, ele diz. E continua: vejo
que ele usa bem os estrangeirismos e faz o sexo e a dor nos
parecerem algo muito comum, como nossas cáries, por exemplo. O
ingênuo levita, está em êxtase. Não cheguei a tanto, mas gostei do
que disse o sábio. Sinto que ele, o sábio, quer ler mais,
interessou-se. Acho melhor que o leia por completo, de uma tacada,
sugiro. É ler pra crer. Ao final desta conversa, o livro Hardcore
blues será um presente a ele.
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Outro mérito de Hardcore blues é sua forma, tão desgastada
pela modernidade, mas retomada como fúria através de versos que são
curtos em suas sílabas e prolongados em sua pronúncia. Isso sem
entrar na perigosíssima área da linguística, onde a combinação
mais-que-perfeita entre significante/significado, quando alcançada -
e penso que é o que acontece em boa parte destes poemas -,
transforma o texto em literatura de estado puro, fundamental. Não é
exagero, digo ao ingênuo, antes mesmo de ele perguntar.
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É texto de estreia de Orlando Lopes, e nada mais digo, concluo. O
sábio, resistente, me pergunta se não há certa arrogância no texto.
Não é disso que se faz a literatura?, pergunto. De uma arrogância
que não agride, mas serve a um propósito: aventar, a seu modo, que
as coisas estão erradas e que é preciso, de alguma maneira,
modificá-las? Silêncio.
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E quanto a esse livro, meu bom rapaz?, ele pergunta, apontando para
Aninhanha, uma combinação de capa em vermelho e cinza que
reluz. Antes que minhas humildes impressões se tornem verbo, o sábio
já folheia o texto com milimetrada curiosidade. Apenas um
parágrafo?, ele pergunta, mais uma vez surpreso, mas se recompõe: "é
arriscado!". Também penso assim, e me parece, argumento, que
Aninhanha é um livro feito de riscos, e isso inclui a história e
o leitor.
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O ingênuo se interessa. O leitor?, questiona. Faço que sim com
movimentos de cabeça e pescoço. Eis o que quero dizer: não quero
tecer comparações, embora não as evite. Alguns autores, abusando do
fato de que a literatura ainda faz algum sentido, foram capazes de
estabelecer entre o texto e o leitor uma séria e fascinante relação
de dependência, e isso se torna possível através da técnica ou do
assunto. Ou dos dois, como fizeram Arreola, Celine, Arlt, Gombrowicz.
O sábio enruga o rosto, mas permite que eu continue. Repito que não
quero comparações, mas Pedro Nunes, o jota de José, e mais
uma vez mantendo-se as proporções, conseguiu aquilo de que esses
citados autores foram capazes: tornar o leitor um quase personagem -
mesmo que de cunho apenas auricular -, participante de uma trama que
é dor e náusea, que é inventividade, crime e pecado. O ingênuo, após
um ano, ganhou peso e pelos no rosto, e se tornou mais
participativo. Telepaticamente orientado pelo sábio, pergunta-me
sobre personagens. Pergunta providencial, que me permite responder,
em minha singela observação, que o principal personagem de
Aninhanha é a linguagem.
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Num rumo à Teoria Literária, o termo personagem, como a própria
denominação acentua, é ligado ao ser humano, do latim persona,
embora imaginário. Isso bem se aplica aos moldes de textos de outros
séculos que não o nosso. A literatura modificou-se, mostrou a língua
para a teoria, e de certa forma estabeleceu que qualquer ser, dentro
do texto, capaz de ter vida própria, pode ser considerado
personagem. Também não é uma novidade. É o que acontece em
Aninhanha, onde a linguagem - e não a língua, regra imposta -,
cheia de inversões, vírgulas suprimidas e neologismos, é um ser em
mutação contínua, um ser que passeia pelo texto com desenvoltura,
esbofeteando o leitor - que se arrisca.
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Um combate?, quer saber o ingênuo. Aí está o risco do leitor que, se
desavisado, vai à lona. Aninhanha é texto de elaboração
exaustiva (presumo), quase parnasiano em sua forma. Não aquele
parnasianismo raimundiano de alheamento universal, mas texto
parnasiano enquanto preocupação com a escolha das palavras, a exata
sonoridade, o ritmo de cada sílaba, texto enxuto ao bom sol. O sábio
me ouve, embora não retire do texto os olhos. Não é o mesmo autor de
Vilarejo? Respondo que sim, e que também gostei de tal texto,
embora prefira Aninhanha. Em Vilarejo, a estrutura é
formal - algo que em hipótese alguma empalidece o texto -, mas muito
me atraem modulações de linguagem. E Aninhanha é um dos bons
exemplos que conheço.
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É um imenso monólogo, como em Grande sertão. Claro que com
menos densidade e menos assunto, pontua o sábio, que acerta sem ter
lido, ainda, o livro em questão. Disco quanto à expressão monólogo,
arrisco. Penso que diálogo, e com o leitor. O ingênuo fecha os
olhinhos e move a cabeça. Aponto que a linguagem, combinação de
referencial e apelativa, poderia muito bem ser considerada uma
grande apóstrofe, um chamamento do qual o leitor é direção. O sábio
ouve, ainda com os olhos em Aninhanha.
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O que mais dizer? pergunto-me. Assinalar passagens do livro, citar?
Encher nossa conversa com aspas e retórica que nunca corresponderá
em justiça ao que está escrito? Deixo que o sábio componha suas
conclusões, e também o ingênuo - mais arguto, mais leitor. É quase
meio-dia: o corpo implorando proteína. O sábio reassume o verbo e,
sempre surpresa, sugere que eu lhe empreste os livros. Uma leitura
rápida, ele diz. Argumento que não - mas é um não ambíguo: relativo
ao empréstimo e à dinâmica de sua leitura. Fique com eles, digo, mas
leia-os com vagar, com a disposição que se deve ter frente aos bons
livros, aqueles que nos servem à memória e ao sabor.
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Há os agradecimentos, sorrisos. O sábio e o ingênuo, mais uma vez os
encontro e em mim ficam as duas impressões. Uma delas, corretíssima:
a missão se cumpriu. Hardcore blues e Aninhanha estão
em boas mãos. Descobrirão nos textos muito mais do que fui capaz de
contar. Quanto à outra, suspeita infinita, é aquela em que vislumbro
o sábio e o ingênuo se distanciarem, as mesmas passadas pausadas, a
quase certeza de que, a partir de agora, são mais felizes.
- Francisco Grijó é professor de
literatura e escritor.
- Texto publicado na revista Você:
SPDC-Ufes, ano II, nº 14, agosto de 1993, p. 24 a 27. |
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